28.3.11

Guia prático de filosofia para Academias

Cena: você está na academia parado diante dos equipamentos, pensando em seus planos (cartesianos). Eis que chega aquele cara - que não se sabe se é mais parrudo ou mais otário – e te pergunta: “E aí, mano, não vai malhar hoje não?” Você respira fundo e responde:
“Desde que cheguei eu não parei de me exercitar, é que hoje eu estou olhando para vocês e malhando conciência. Só assim vou conseguir “firmar” e afirma aquilo que sou diante do mundo. Ou você duvida que nossa identidade se encontra exclusivamente na atividade constante da mente, sendo esta entendida como algo distinto do corpo?”1
Depois, é só se ligar no nó que ficou a cabeça do incauto bombadão.
1 Na hora de se “definir” como ser humano, René Descartes (séc. XVII) afirmava antes de
tudo ser “uma coisa pensante” e não apenas um lindo corpinho
dando mole nas avenidas de Paris.

A segunda maravilha na cozinha de um jovem mancebo

Depois de render louvores ao glorioso fogão 4 bocas de acendimento automático, com suas chamas sagradas, eis que venho proferir meu oráculo acerca de um utensílio indispensável na cozinha de qualquer vivente: o rôdo de pia.
“Sim, acreditai-me, oh rôdo de pia, és digno de nota, graças aos teus favores para com aqueles que buscam uma cozinha minimamente apresentável. Rodei tanto, oh rôdo celeste, que acabei sendo encontrado por ti. Como vivi todo esse tempo sem tua companhia? Oh pequenino rôdo, meu coração transborda contente contigo. Tu não és o fim, és o meio, o meio pelo qual a tua pia companheira fica enxuta, amenizando a quizumba que é a cozinha deste pobre escriba.”

Quando os encontros têm que acontecer, não há nada que o desaconteça. Ocorreu-me de ir ao Recife neste ultimo fim de semana. Era a 3ª vez que visitava a capital pernambucana. Ouvi certa vez que só se conhece bem uma cidade quando se frequenta seu mercado público.
Foi o que fiz. Rodei o Mercado São José no sentido de comprar um chapéu de palha no estilo daquele usado pelo finado Chico Sciense.
Até encontrei o bendito chapéu, mas dei mais importancia àquele pedaço de plástico de extremidade emborrachada (não pensem besteira, estou descrevendo o rôdo!). R$ 3,30 foi o que custou a minha mais importante aquisição do ano da graça de 2011.

26.3.11

Sábado de manhã

Dia de descanso na alcova
quero acordar tarde
mas não tem quem durma
a vizinhança é um desastre
ouço cada absurdo
vejo o povo louco a gritar
quisera eu fosse surdo
vou deixar este lugar
mas de uma coisa estou certo
buscarei a paz no deserto
lá eu viveria feliz
essa é a vida que eu sempre quis
não ter ninguém por perto

25.3.11

S e r t ã o d e v e r s o em números

O blog mais Ctrl+Alt+Del da Via Láctea conta com 252 postagens
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A postagem mais vista foi o pequeno princípe e a raposa, com 1.308 visualizações

(dados fornecidos e auditados pelo SiteMeter e Blogger)

24.3.11

Quotidiário ou Corte.diário?

Querido diário, hoje acordei com uma cólica cerebral daquelas. Nunca imaginei esperar tanto a noite chegar e, com ela, a hora de dormir, para que a tormenta deste dia passasse logo, revogando, assim, suas penas.
Nada de medonho aconteceu que fosse preciso acionar a Scotland Yard. Na verdade, nada de malassombroso aconteceu neste dia. Se não fosse o gás ter acabado antes de secar o arroz, e a energia faltar na hora de fazer o suco de maracujá, e a ultima long-neck da geladeira congelar, e não poder comparecer ao funeral de Elizabeth Taylor, e suspeitar da possibilidade de voltar a trabalhar 8 horas por dia, e a mucosa do nariz sangrar por causa da baixa umidade do ar... ora, todos esses acontecidos atestam a desnecessidade deste dia.
Tentando salvar o fatídico dia, tomei uma decisão arriscada: Fui pra academia. Lá chegando, um abatimento mortal tomou conta de mim. Desisto. Despedi-me da academia num ato solene: enquanto o instrutor me cobrava os ultimos 2 meses, parti sem olhar para trás. Vou cuidar agora em salvar a alma, porque o corpo já era.
Oh, querido diário, e agora sabendo que a ficha limpa vai limpar a barra de muito neguim, o que será de nós, a vontade de cortar os pulsos com a tesoura sem ponta de Eliana é grande. Mas tenhamos fé, pois só Jesus silva!
Sorte do dia: Sr. Anselmo irá para Caicó semana que vem e trará queijo-manteiga para mim.
Fim daquilo que não merecia começar.

23.3.11

Fábula ferina para público singular

Era uma vez uma jaguatirica que sempre desejou viver vivia distante de sua família. Possuia um temperamento afável, mas que era facilmente “tirado de tempo” quando alguém lhe tirava de tempo. Amava e se sentia amado por uma panterinha.
Certo dia, sem esperar, a jaguatirica teve que fazer uma longa viagem para um lugar muito distante. De mochila nas costas, ela empreendeu resoluta seu caminho, sem realmente saber o que lhe esperava, todavia, o que ela esperava na verdade era que tudo desse certo.
E tudo ocorreu como a jaguatirica havia imaginado. Ressalva: nem tudo! Tudo teria sido perfeito se a jaguatirica conseguisse ser mais paciente para com quem lhe ama e quer bem. Cheia de ansiedade e angustiada para, enfim, chegar à sua toca, ela se viu possuída por uma aguda pertubação no juízo, também conhecida por “farnizim”, por causa de uma simples ligação. Só depois é que ligou os fatos com seus atos, e viu o quão anta foi.
E aquilo que a jaguatirica mais temia no mundo aconteceu: uma tirada de tempo daquelas e tristeza no semblante da panterinha. Refletindo em seu semi-leito de morte, lembrou-se do velho Nietzsche, quando este dizia da necessidade de ser esponja para ser amado por corações transbordantes.
Passado o passado, tudo volta a sua ordinariedade odierna. Por fim, a jaguatirica concluiu que existir no mundo implica em ter de lidar com certa tensão. Dependendo da estrutura da criatura essa tensão toma conotação diferente. Ela firmou o compromisso de manter a paciência sempre diante de seus olhos, para o seu próprio bem e para o bem de seu bem.

22.3.11

não discuto
hoje eu só escuto
não resolve
o argumento se dissolve
não adianta
se o agir é de anta
não importa
pode bater a porta

18.3.11

53 anos de uma Epifania

Em 18 de março de 1958, numa esquina em Louisville, Kentucky, Thomas Merton teve uma visão de unidade com todas as pessoas. Ele chamou essa visão de "epifania". Trata-se de um dia histórico, pois a partir deste fato um grande amor universal ganhou a atenção deste místico americano, o fazendo dialogar com as demais grandes tradições religiosas existentes.
Vejamos o trecho de seu diário Reflexões de um Espectador Culpado:
Em Louisville, no canto do quarto, no centro da área comercial, de repente eu estava sobrecarregado com a constatação de que eu amava todas aquelas pessoas, que eram minhas e eu delas, que não poderia ser diferente um do outro apesar de estarmos totalmente estranhos. É um glorioso destino ser um membro da raça humana... não há nenhuma maneira de dizer às pessoas que todos eles estão andando brilhando como o sol. De repente, vi a beleza secreta de seus corações, nas profundezas do seu coração onde nem o pecado nem o desejo nem o auto-conhecimento pode chegar, o núcleo de sua realidade, a pessoa que cada um é aos olhos de Deus. Ah, se apenas todos pudessem vê-se como elas realmente são. Se pudéssemos ver um ao outro dessa forma o tempo todo. Não haveria mais guerra, mais ódio, mais crueldade, não haveria mais cobiça ...

16.3.11

Microconto #1: Mãos

Sua mulher sempre desconfiou. Suas mãos suavam de tanta dúvida. E o que dava mais sustentação era o fato dele possuir mãos macias.
Mãos ao céu, ela agradeceu o dia em que o pegou com as calças na mão. De mãos vazias, não havia como ele explicar aquela “mão na roda”.

14.3.11

Ao dia da poesia

O que é a poesia
senão uma explosão interior
seguida de pura alegria
a espalhar versos de amor

Pensar como poeta
é transpor a barreira do natural
um néctar que a abelha coleta
uma doce linguagem celestial

A poesia é cercada de mística
mas nem todos levam a sério
se a mim fosse dada a proeza artística
elucidaria, com a escrita, esse grande mistério

Sem o intelectualismo de Plotino
ou o ceticismo de um estóico
faria a poesia soar tal como hino
um brado retumbante de um poeta heróico

12.3.11

Sou contra o que falam de vós
Sou contra dicção veloz
Sou contra ruído de voz
Sou contra adição de nós
Sou contradição feroz

11.3.11

Nietzsche miguxo

Certa ocasião, nos idos da minha adolescencia, visitando meu amigo Pedro, conversávamos em sua biblioteca. Recordo que o primeiro título que saltou nos meus olhos foi o Assim falava Zaratustra, do incompreendido Friedrich Nietzsche - já o conhecia como sendo aquele que proclamou a morte de Deus. É o típico autor que desperta devoção ou aversão: ame-o ou deixe-o.
Manifestei interesse de ler o que Zaratustra falava, mas a voz da sabedoria sentenciou: “esse livro não é para você”. Até então eu não sabia que os livros escolhiam seus leitores.
Fiquei com essa curiosidade aprisionada por mais de 10 anos. De fato, uma figura cuja personalidade ainda está em processo de formação não poderia tirar todo proveito desta obra.
Nietzsche colocou na boca do profeta Zaratustra toda sua energia intelectual para analisar o homem condenado à liberdade e vulnerável ao pensamento coletivo. Uma cabeça juvenil não abarcaria esses novos conceitos, posto que, além do autor refletir sua posição frente aos conflitos da sociedade, era a sua interioridade abalada por uma desilusão amorosa que estava à mostra.
Quem lê Nietzsche superficialmente ou encherga a figura de cristão ressentido ou de um apologista do ateísmo. Mas ele vai além disto. Sua presença é indispensável na discussão de toda essa contemporaneidade que nos rodeia, numa perspectiva que reforça a necessidade do pensamento crítico.
A razão da presente postagem é compartilhar um insight do velho Zaratustra. No tópico intitulado Do amor ao próximo, Nietzsche desconstroi toda educação cristã um dia recebida. Segundo este profeta do fim do mundo, devemos fugir do próximo e amar o remoto (já discorri sobre isso numa postagem em 24.09.2009 - clique aqui). Ou seja, o convívio com os homens estraga o caráter, sobretudo quando não se tem caráter. Zaratustra é uma metralhadora giratória a disparar idealizações do super-homem. Numa delas, ensina a amar o amigo (claro, desde que esteja longe!):
“Que o amigo seja para vós a festa da terra e o pressentimento do super-homem. Eu vos ensino o amigo e o seu coração transbordante. Mas é preciso ser uma esponja quando se quer ser amado por corações transbordantes(...). Meus irmãos, eu não vos aconselho o amor ao próximo, aconselho-vos o amor ao longínquo. Assim falava Zaratustra.”

Ler isso 10 anos atrás atrapalharia toda a construção do pensamento deste escriba. Contudo, ler Nietzsche no tempo presente me faz engrossar as fileiras que dão a ele o status de pensador pop, a ponto de ser citado por figuras tão distantes, como cantores de rock a ficção de escritores intelectualizados.


4.3.11

Ausência e Permanência


Mente ausente, alma presente
Estive a perambular por universos de sombra e luz

Meus universos.... que chegam em versos

Entreguei-me ao olhar do flamboyand vermelho

À angustia de um espaço-tempo incompreendido

E contido

Entreguei-me ao andar do besouro insistente

E o voar das garças contentes
São as graças de um caminhar
São presentes
Entrego-me a sentimentos aflorados, reprimidos

E exprimidos

Ao dançar das folhas ao vento

Até ao extinto convento

Onde a freira que dança me espera para dançar

E se desespera ao não me ver chegar

Me entrego ao sopro quente de palavras indesejadas
Outras almejadas
Entrego-me ao caminho que escolhi caminhar

O de amar o meu andar

Com você, comigo e com o terceiro de nós

Não sós

Com sóis a iluminar o nosso dançar

(publicado dia 29 de novembro de 2005, no http://ovelho.blogspot.com/)

3.3.11

Gostaria de discorrer em verso
conteúdo bastante controverso:
idílicas ideias, lúdica lucidez
iluminar ilusões, escancarar estupidez

Gostaria de pintar com paciência
as cores vivas da eloquência:
improváveis lampejos-clarão
advindas de renitente escuridão

2.3.11

Criações ilusórias

"Se considerarmos nosso vulnerável envoltório como nossa verdadeira identidade, se pensarmos que nossa máscara é nossa verdadeira face, nós o protegeremos com invenções mesmo à custa de violar nossa própria verdade. Este parece ser o esforço coletivo da sociedade: quanto mais os homens se empenharem nele, mais certamente a invenção se tornará uma ilusão coletiva, até chegarmos a ter a dinâmica enorme, obsessiva e incontrolável de criações ilusórias destinadas a proteger identidades meramente fictícias - 'eus' considerados como objetos."
Thomas Merton